terça-feira, 30 de setembro de 2008

O dia em que choveu em Djibouti

Vocês já devem ter reparado que quando o papo não evolui entre duas pessoas que não se conhecem muito bem, invariavelmente o assunto acaba por evoluir para o tempo. Pois bem, foi numa dessas situações que fiquei sabendo, por pessoas que já moram aqui há mais de 2 anos, que durante todo esse período eles tinham presenciado uma única garoazinha fraca de uns 15 minutos em Djibouti.

Por isso, foi uma grande surpresa quando acordei numa sexta-feira com o barulho das trovoadas. Por um momento achei que estivesse em Curitiba, depois pensei que era o barulho do gerador diesel, que liga toda vez que a energia cai por aqui. Mas não. Realmente era a chuva caindo em Djibouti!

Saltei da cama rapidinho e apanhei minha fiel escudeira digital para registrar esse momento raro. Pena que ele aconteceu justamente no meu dia de folga e acabou estragando o passeio que tínhamos marcado. No fim do dia, saímos para dar uma volta no centro e bater mais umas fotos desse dia chuvoso que só deve acontecer novamente por aqui em 2010! O resultado vocês podem ver nos vídeos e nas fotos a seguir.


O início da tempestade que depois veio com força total.


Os vizinhos da minha janela tiveram que improvisar uma cabaninha.

Chove chuva...

...chove sem parar!


A chuva veio com força depois de tanto tempo sem cair.


A rua da Staff House ficou desse jeito. Aqui chove tão pouco que as ruas não tem bueiros.


Volta pelo centro. Vestígios da colonização francesa em Djibouti.


Chegando ao centro nervoso de Djibouti. Seco já é feio, com esse monte de poças então...


Esse é o mercado central de Djibouti. Já é caótico e nojento sem chuva, imagine assim...


Dizem que eles não gostam que tirem fotos deles. Realmente o rapaz está com cara de poucos amigos...Sorria!


Mesquita na praça do mercado central.


Aqui é como Salvador e suas igrejas. Uma mesquita em cada esquina.


As barracas do mercado.

Aposto que a mulherada aí do Brasil iria adorar mesmo sendo desse jeito.

Toda rótula tem algum enfeite no meio.

Terminamos o dia no hotel Kempinski, mas isso já é história para ser contada no próximo post. Não percam!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Cenas pitorescas de Djibouti

Para que vocês possam conhecer um pouco mais a cidade e sentir como é o dia-a-dia por aqui, seguem algumas fotos e vídeos pitorescos que fiz por aqui.

A primeira coisa que chama a atenção por aqui, quando saímos para dar uma volta, é o trânsito. Como já falei, são poucos carros, mas as barbeiragens são inúmeras. Mas, outro fato interessante, são os enfeites, adesivos, adereços e cores dos ônibus. Tem alguns que parecem verdadeiros carros alegóricos.

Vídeo mostrando um pouco do trânsito de Djibouti


O que também chama a atenção é o estado de conservação de alguns veículos, muitos sem os pára-brisas, outros sem boa parte da lataria e alguns com tanta ferrugem, que se você for atropelado, ou morre do choque ou morre de tétano.



Esses são os ônibus que transportam o pessoal da obra...


...todos com esse enfeite brega no retrovisor



Alguns são originais até mesmo na cor (rosa bichona)



Os táxis também não ficam pra trás. Todos têm essas capas no volante. Alguns têm o volante do lado direito, o que explica parte das barbeiragens no trânsito. Eu só não entendo essa manta em cima do painel nesse calor infernal que faz por aqui



Aqui as mulheres podem dirigir, diferente da Arábia Saudita e de outros países muçulmanos mais radicais, como o Yemen, onde num recente decreto, as mulheres foram proibidas até mesmo de sair de casa.



De vez em quando vemos um caça cruzando os céus de Djibouti (o que é meio difícil de fotografar) e é normal cruzarmos com tanques pelas ruas



Há algum tempo atrás um caminhão da obra colidiu com um desses tanques, que voltava de um treinamento militar. O tanque capotou e os soldados saíram meio atordoados lá de dentro. Estamos apreensivos com a represália...rs



O que se vê todo dia são camelos, muito camelos



Segundo informações, muitos deles são exportados para países do Oriente Médio.



O horário que chegamos na obra é exatamente o horário em que eles estão fazendo seu passeio matinal.

Sempre encontramos uma cáfila (coletivo de camelos, aprendi aqui...rs) na entrada do canteiro. À noite, algumas vezes, também cruzamos com cáfilas enormes pelas ruas da cidade



É verdade! Cuidado, camelos na pista!


Na pista mesmo!


Esse se perdeu do bando



O que eu mais gosto é o jeito “tô nem aí” deles. Eles tem uma cara meio esnobe...rs



E que tal a pose desse?

Também acompanhamos, no caminho para a obra, a construção de uma loja.

No dia da concretagem da laje, aquilo parecia um formigueiro



Mas o que eu não sabia e que alguns colegas de trabalho me esclareceram é que eles usam nessa concretagem uma bomba de alta tecnologia de 50 HP (50 Homens Pretos, hehehe). O concreto vai passando de mão em mão na base do baldinho! Pro pessoal da segurança do trabalho, fica a missão de achar quantas irregularidades e quantos potenciais acidentes podem ser vistos nessa foto.



Falando em segurança, é interessante ver algumas placas da obra. Mensagens em vários idiomas para sensibilizar a todos, em um lugar onde não se tem muito a cultura do trabalho seguro



Outros avisos procuram ensinar boas maneiras ao se utilizar os banheiros. Isso quando os mesmos são utilizados, pois é comum eles fazerem suas necessidades pelos cantos da obra. Eu mesmo já vi alguns em plena atividade...rs



Placas proibindo o consumo do khat, a cocaína local, nas dependências da obra. O khat chega todos os dias de avião da Etiópia, no mesmo vôo que eu peguei na minha vinda pra cá



Perto do meio-dia são montadas as barracas nas principais avenidas e começa a venda da droga. Pra dar um “barato”, é preciso mascar as folhas da planta por umas 3-4 horas e é comum ver os djibutianos com bolas enormes de khat na boca. Alguns tem os dentes até verdes de tanto mascarem e outros conversam contigo com uma gosma verde no canto da boca

Bom, é isso...Carros caindo aos pedaços, enfeites que chegam a dificultar a visão do motorista, volantes do lado esquerdo e do lado direito, pedestres suicidas, condutores entorpecidos pelo khat...

Pensando bem, tem muitos motivos pro trânsito daqui ser do jeito que é!

No próximo post, continuarei dando um volta com vocês pela cidade. Até lá!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Khor Ambado

A semana de trabalho aqui em Djibouti vai de sábado à quinta-feira. Só temos a sexta-feira para descansar. Entre as inúmeras opções de lazer em Djibouti (quatro no total) está a praia de Khor Ambado, mais conhecida entre a galera daqui como praia dos franceses, em função do povo que normalmente a freqüenta.

A praia não fica muito distante do centro da cidade (20 km) e fica ainda mais perto da Staff House. No entanto, o caminho até lá não é dos mais fáceis. Após o trecho da rodovia para Doraleh, o mesmo que usamos para ir ao trabalho, entra-se em uma estrada que é um desafio à parte para se chegar até a praia.

Trajeto entre a Staff House e Khor Ambado

O carro chacoalha sem parar. A estrada corta um terreno cheio de pedregulhos oriundos de rochas vulcânicas, um cenário meio lunar, castigado pelo sol escaldante que não dá trégua aqui por essas bandas.


Estrada para Khor Ambado, uma paisagem diferente...


...pedregulhos de rochas vulcânicas por todo o caminho

A vegetação é formada por árvores baixas, com a copa achatada e cheias de espinhos. De vez em quando se avista um camelo perdido ou uma criança pedindo alguma coisa, até mesmo água para beber. Algumas delas chegam a colocar pedregulhos no meio da estrada para tentar fazer os carros pararem. Quando conseguem, retiram a pedra em troca de alguma esmola. Quando não conseguem, costumam atirá-las em direção ao carro... Uma beleza! Por sorte, não encontramos nenhum desses doces de criança no dia de nossa visita.

Camelos no meio da estrada. Pelo menos eles não atiram pedras...
De vez em quando, aparece uma árvore para quebrar um pouco (só um pouco...) a coloração bege do lugar


As árvores são bem diferentes, cheias de espinhos

Após alguns minutos de sofrimento avista-se a praia. O azul do mar visto de longe é muito bonito e quando se chega mais perto nota-se que a água é totalmente transparente


Entre as rochas vulcânicas, começa a surgir o azul do mar...


...que vai ficando cada vez mais bonito, à medida que a praia se aproxima


Chegamos! Nossa simpática barraca na beira da praia


Vida boa! Curtindo o sol de Khor Ambado


Nesse vídeo dá pra se ter uma idéia do quanto o carro chacoalha na estrada

Existe uma barreira de corais bem próxima da beira da praia. Basta um mergulho na água quente e bastante salgada para se avistar uma quantidade enorme de peixes de cores e formatos variados. Uma experiência muito legal! Uma pena eu ter esquecido meu equipamento de mergulho em casa. Mas não tem problema. Pretendo voltar aqui mais vezes. Com óculos e nadadeiras emprestados pude aproveitar bastante a paisagem.


Areia escura e grossa, água quente e salgada, mas totalmente transparente e com muitos peixes. Tô doido pra mergulhar!

A infraestrutura é precária, conforme imaginado. Existem alguns "quiosques" que servem comida, mas preferi não arriscar e fiquei sem comer os peixes e as saladas que o pessoal pediu. Os donos são simpáticos e adoram um aperto de mão. A cada final de frase ou a cada risada que se dá, lá vem uma série de apertos de mão.

Enfim, aproveitei bastante esse meu “fim de semana”. Pude reabastecer as energias para mais uma longa semana de trabalho. Eu que sempre gostei de uma sexta-feira, agora não vejo a hora dela chegar!


Pôr-do-sol em Khor Ambado. Acabou a festa...


Auto-fotos, sempre elas...

domingo, 14 de setembro de 2008

Ao trabalho!

Antes de mais nada, peço desculpas a todos pelo longo tempo afastado. O motivo? Justamente o tema desta postagem: o trabalho que venho desenvolvendo aqui no projeto. Trabalho este que nas últimas semanas não tem me deixado folga para escrever no blog.

O expediente começa às 6 da manhã para o pessoal de campo e às 7 horas para o pessoal do escritório. Para o almoço, que é feito na Staff House I, temos um intervalo de 2 horas, das 11:30 às 13:30 e depois voltamos para a obra, onde oficialmente deveríamos ficar até 18h, mas quase nunca voltamos antes das 20h. Só dá tempo de jantar, falar um pouco no Skype e dormir para reiniciar a rotina, acordando no outro dias às 6 da matina.

O trajeto entre a casa e o canteiro de obras é de aproximadamente 9km, feitos entre 10 a 15 minutos, dependendo do motorista e da pressa. A única certeza é a emoção no meio do caminho. Não há um dia sem uma grande barbeiragem, uma cortada, um carro andando na contramão (mesmo na estrada), carros ultrapassando na curva ou pedestres que não olham para atravessar a rua ou que não tem a mínima noção de tempo x espaço. Nesse período que estou aqui já presenciei uns 5 acidentes nesse trajeto e acho que isso é um verdadeiro milagre!!


Trajeto entre a Staff House e a obra: repleto de emoções!

Há um Diretor do Contrato e 4 Gerências: Comercial, Administrativo-Financeira, Construção e Engenharia. Trabalho na Gerência de Engenharia, com a responsabilidade do planejamento e acompanhamento dos serviços executados. Uma tarefa bastante difícil, uma vez que cheguei com a obra em andamento, na verdade já bem próxima do seu fim (assim espero...).


Minha mesa e a sala que divido com 2 engenheiros portugueses

A intenção é colocar parte do porto em operação agora no mês de dezembro e concluí-lo totalmente em julho de 2009. Tarefa para uma turma multinacional e multirracial de mais de 1.200 trabalhadores, vindos das mais diferentes partes do mundo.



Composição da mão-de-obra direta e indireta do projeto: isso sim é globalização!

Seguem algumas fotos mostrando parte das obras em construção:


2008: primeira foto na obra de Doraleh Container Terminal...

2001: Obra de Itiquira (MT) pela Inepar. Essa camisa já virou tradicional nas minhas fotos de obra, hehe.


Cravação de estacas no cais (Quay): as estacas são tubos de aço com comprimento variável (normalmente maiores que 50m) que são cravadas no fundo do mar por um bate-estacas (hammer). À esquerda, boiando no mar, mais uma estaca trazida de barco até ali e esperando pra ser cravada.


Outro ângulo: nessa foto pode-se ver o guindaste segurando o hammer, tudo isso feito em cima de uma plataforma denominada cantitraveler. Pode-se ver também as linhas de estaca já cravadas (são 175 linhas transversais de 4 estacas), os tirantes entre as estacas e a preparação para o concreto de segundo estágio, que é feito em duas etapas...


... Na primeira etapa são lançados elementos pré-moldados longitudinais que apóiam-se nesses suportes metálicos provisórios (onde estão os trabalhadores na foto) e que são amarrados e concretados junto com a cabeça da estaca...


...Após a concretagem da primeira etapa, apóiam-se nos primeiros elementos os pré-moldados da segunda etapa, estes transversais...


Após a segunda etapa do concreto de segundo estágio, é feito o concreto de terceiro estágio para colocação dos trilhos por onde correrão os guindastes definitivos do porto


Estoque de estacas no pátio de fabricação


Estaca sendo descarregada no pátio de fabricação


Elemento pré-moldado sendo transportado para o cais


Acabamentos do cais para permitir o atracamento dos navios


Pausa para foto artística, com direito à sombra do Rhoderick, meu assistente filipino


Anodos que são soldados às estacas para proteção contra corrosão


Toda a área do Sea Yard (local onde serão depositados os containers) passa por um pré-carregamento durante 48 horas feito com esse aterro (preload) de 8 metros de altura...

...só depois são iniciadas as diversas camadas de pavimentação


Carregadeiras que vão movimentando o preload por toda a área do Sea Yard...


...com a ajuda das escavadeiras


Eu em cima do preload, colaborando para o bom assentamento do terreno


Vista de cima do preload para as camadas iniciais de rocha e o filtro de geotêxtil que evita que os materiais finos (terra e areia) escorram pelo meio das rochas


A etapa final da pavimentação é a colocação desses blocos intertravados de concreto (interlock blocks)...


...com a ajuda dessa maquininha


Estoque de interlock blocks


Vigas por onde vão rodar os guindastes sobre pneus pra movimentação dos containers. Aqui chamamos de RTG (Rubber Tired Gantry) Beams


Reefer towers: estruturas metálicas usadas para alimentar de energia os containers refrigerados


Workshop Building: prédio onde ficará toda a operação do porto. Cravação das estacas metálicas usadas na fundação


Amenities: prédio onde ficarão os refeitórios e os vestiários dos funcionários do porto

Concretagem das vigas de fundação do Amenities: segura peão!

Nem sempre a turma acerta nas traduções. Valeu a boa intenção, rs...


Power Plant: Geradores da Cummins (2000 kVA) que vão alimentar de energia o porto


Subestação 1: alimenta os principais prédios (Workshop e Amenities) e parte da iluminação do Sea Yard


Alvenaria interna da Subestação 1 com blocos de concreto


Subestação 3: alimenta os Reefer Towers. Detalhe: o peão djiboutiano da direita não trabalha com o colete amarelo no rosto... é que ele pensou que eu era algum tipo de fiscal e tratou de vestir rapidinho e "discretamente" o colete


Filme com a vista geral da obra, em frente aos escritórios do canteiro. Ao fundo, o alerta sonoro de detonação, que como sempre toca às 11:30, é quase como um sinal de recreio, hehe...


Final da visita com mais uma auto-foto, com direito à bandeira de Djibouti hasteada no canteiro tremulando ao fundo. Espero que tenham gostado!


Djibouti-ti-ti-ti....